"Gosto de Bagdad e gosto do Iraque. É o verdadeiro Oriente e é excitante. As coisas estão a acontecer aqui e o romance subjacente a tudo isto toca-me e absorve-me." Na primeira metade do século XX, era este o sentimento de Gertrud Bell, o rosto do Império Britânico no Iraque, a mulher a quem os árabes chamavam "filha do deserto". Agora, na primeira metade do século XXI, o sentimento é outro, menos romântico, mais pragmático "Não entrámos no coração do Iraque, libertando 25 milhões de pessoas, mas pagando um amargo preço em baixas, para retirarmos perante um bando de rufias e assassinos." Dois anos depois da invasão, as palavras do Presidente George W. Bush testemunham bem o quanto os americanos não estavam à espera da persistência da revolta, mas traduzem também uma vontade empedernida de não perderem a face perante o mundo..Por isso, visões românticas à parte, Bush enfrenta agora o mesmo dilema que, à distância de quase um século, Bell enfrentou.Com a curiosidade de o Presidente americano ter acabado por, involuntariamente, inverter o que a arqueóloga e arabista britânica desencadeara. Bell, após a revolta xiita de 1920, que matou para cima de dez mil iraquianos e custou 500 milhões de libras à Coroa britânica - uma verba, à época, exorbitante - logrou que o seu país, desenhadas que estavam as fronteiras da antiga Babilónia, entregasse, de forma gradual, o poder às elites locais. Sunitas, maioritariamente. Bush está a corrigir o erro, apesar de já ter pago um elevado tributo, com a morte de mais de 1500 soldados americanos e os milhares de milhões gastos no esforço de guerra. Ao "empurrar" os iraquianos para uma democracia nos moldes ocidentais - um caminho marcado pelas eleições legislativas e municipais de 30 de Janeiro -, permitiu também que xiitas e curdos deixassem de ser ostracizados. .Outra vitória inequívoca foi a captura, a 13 de Dezembro de 2003, de Saddam Hussein, o homem que governara o Iraque, de forma inclemente, durante 35 anos e que ousara, por várias vezes, desafiar a superpotência americana, num jogo do gato e do rato, desencadeado pelas suas presumíveis capacidades bélicas, que lhe custaria caro. Aguarda julgamento, sendo acusado de genocídio e de crimes contra a humanidade.."esperanças". Ao anunciar ao mundo, a 19 de Março de 2003, os contornos da operação "Liberdade do Iraque", Bush - longe de imaginar um escândalo com as proporções das torturas cometidas em Abu Ghraib - declarou que as "esperanças de um povo oprimido" dependiam dos soldados oriundos dos 35 países da coligação internacional. Na véspera, dera um ultimato a Saddam para que abandonasse o Iraque. Desafiado pela recusa do seu interlocutor, o Presidente americano acabaria por ordenar a invasão. .Nem tudo correu bem. Melhor, quase nada. Talvez porque, como se especulou muito, Bush foi mal aconselhado. Pelos neoconservadores, pelo poderoso lóbi armamentista e por uma diáspora iraquiana, personificada no polémico Ahmed Chalabi, que da pátria tinha apenas uma visão distorcida por anos de exílio. "Sem Chalabi, esta guerra não teria sido iniciada", chegou a vangloriar-se Francis Brooke, próximo do líder do Congresso Nacional Iraquiano. Terá sido o CNI a vender as informações relativas às - afinal, inexistentes - armas de destruição maciça. Terá sido Douglas Feith, antigo número 3 do Pentágono, a empolar a ameaça iraquiana, não acautelando as Forças Armadas americanas para a resistência que estava para vir ( a CIA chegou a ter empacotadas centenas de bandeiras americanas para distribuir aos iraquianos). Terá sido o vice-presidente Dick Cheney a aliciar o seu superior hierárquico para as vantagens económicas decorrentes da destruição do Iraque. Mas foi Bush que, no fim, assumiu o "pesado fardo" da invasão, mesmo abrindo brechas no diálogo transatlântico, com a França e a Alemanha a voltarem-lhe as costas. Saiu-se bem, apesar de tudo. Foi reeleito, convenceu os americanos de que o Iraque se tornou numa questão de segurança nacional, fez da democracia no Médio Oriente o seu Graal..Talvez por causa da sua "relativa ignorância da região", como comentava recentemente- não sem uma ponta de veneno - Fareed Zakaria, analista da Newsweek, o Presidente americano abalançou--se a novos desafios. Cobrou uma dívida, aberta por anos de apoio contramaré, pressionando Israel a desmantelar alguns colonatos, instando a Arábia Saudita a realizar escrutínios locais multipartidários, por exemplo..Pequenos passos, para uns - com os europeus à cabeça (o Presidente francês, Jacques Chirac, chegou a dizer que "a democracia não se exporta em furgões blindado"); grandes, para outros, sobretudo os americanos, que, na sua tendência de darem cor e textura às recentes mudanças, defendem que a "revolução púrpura" no Iraque é já o prenúncio de uma "primavera árabe".